Depois de séculos a fio o sertanejo espera com a mesma ansiedade de uma gestante, a conclusão das obras do Projeto São Francisco.

A caatinga nordestina tão habituada ao cinza da vegetação, ao amarelo ocre da terra e a aspereza dos cactos xique-xique e mandacarus, dão lugar ao vai e vem de maquinário pesado; tratores de esteiras, retroescavadeiras, caminhões basculantes, equipamento de perfuração, equipes de demolição de rochas, caminhões betoneiras, carros pipas e toda uma série de equipamentos de construção que transformam a paisagem, abrindo canais, perfurando serras e montanhas, transformado a paisagem, desalojando pessoas, realocando-as em novos lugares, mas, propiciando um espetáculo novo. Algo mágico na visão do sertanejo nordestino, um sentimento misto de curiosidade e apreensão, permeado por uma constante esperança de renovação.

Ao longo dos anos, Imperadores sonharam, engenheiros elaboram e trabalhadores comuns realizam a impressionante construção dos canais que levaram as águas do Velho Chico as regiões semidesérticas do nordeste brasileiro.

A magnitude e grandeza da empreitada coloca por terra toda a incredulidade dos pessimistas de plantão. Eles torcem pelo adiamento perpétuo do empreendimento que porá fim ao ciclo vicioso de miséria, subserviência e anacronismo politico, que reinam e se negam a ceder lugar a uma nova realidade sociológica, politica e cultural, que promete possibilitar toda uma nova gama de oportunidades a uma região brasileira há muito esquecida e considerada inaproveitável do ponto de vista econômico social.

Domingo 18 de maio de 2015, podemos ver com nossos próprios olhos, o andamento das obras do Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional, ou simplesmente Transposição das Águas do Rio São Francisco.

Um grupo pequeno de 35 pessoas, formado em sua maioria por trabalhadores rurais, representantes sindicais, microempresários, representantes políticos, fotógrafos, empresários, e alguns poucos jornalistas, tive a oportunidade de contemplar in loco a superestrutura de logística e execução de um dos maiores empreendimentos de engenharia da história do Brasil.

Em Cabrobó Pernambuco, situa-se o marco zero da obra. O canal de concreto delimita o início do trecho do eixo norte: da embocadura do rio até a primeira estação de bombeamento. Neste local uma mega estrutura de concreto, encrustada na rocha granítica, acomoda 08 (oito) gigantescas eletrobombas de sucção que aduzem a água do rio e a elevam para o leito do canal principal. Quilômetros mais adiante o exercito brasileiro construiu a primeira barragem artificial do projeto, denominada de Tucutu, com capacidade de acúmulo de 22 milhões de metros cúbicos de água.

Vê-se ainda 40 km ( quarenta quilômetros) a frente, mas um feito notável da engenharia nacional: uma estação elevatória possibilita a elevação da água dos canais a um desnível de quarenta 40 (quarenta) metros. Novamente os canais serpenteiam o sertão desta vez em cima das serras. Aquedutos elevam-se sobre leitos de rios e riachos secos, túneis, canais, bueiros, o vai e vem inconstante de máquinas, contrasta com a passagem silenciosa e majestosa de vaqueiros nordestinos, encobertos com seus gibões de couro, desafiando a inclemência do sol e das intempéries do sertão.

O cronograma de execução da obra avança a passos largos, mais de 70% do projeto já saiu do papel, materializando-se no chão seco. Por tais motivos é inegável e irresponsável afirmar que o projeto não terá fim.

Avante Brasil! Acorda Nordeste! Dias melhores virão, que as águas do “Velho Chico” renovem nossas esperanças e transformem a nossa região num oásis de fertilidade e desenvolvimento sustentável, proporcionando condições igualitárias de oportunidades aos que estiverem dispostos a empreender, e aprender a conviver com os recursos que a natureza oferece.

Parafraseando o educador pernambucano Paulo Freire, “[…] é preciso ter esperança do verbo esperançar, pois os que têm esperança do verbo esperar, vivem só na espera”.

Paulo Abrantes de Oliveira

Professor do Curso de Direito da UFCG-CCJS-SOUSA

Mestre em Recursos Naturais e Desenvolvimento Sustentável pela UFCG

 

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